Para Lídia.
Péssimo dia para pensar as coisas do futuro, que num dia como este parece mais negro do que nunca. Não é um sentimento de inadequação: se alguma coisa há fora do lugar não sou eu, que nunca estive tão lúcido, tão sóbrio em minhas considerações. É por isso que o porvir é tão pouco auspicioso: qualquer que fosse ele seria nada perto do que eu quero e gostaria que fosse. O negro então sou eu, que tenho a sede de um rio inteiro, mas que vejo à minha frente apenas um meio copo de água barrenta, salobra. A pouca luz que deixa esta cidade tão paulistana na penumbra já é o suficiente para me cegar por dez gerações. Queria uma cidade menos ocidental; uma que tivesse as várias acepções de “não” da língua japonesa. Queria, como os japoneses, não contar com o verbo “ser”, que me comprime a mente e dá limite à alma. Queria, por fim, o “não-ser” em múltiplas modalidades: toda uma nova escala de valores onde eu não seria obrigado a comparar o nada com coisa alguma e me libertar de uma vez por todas de ter que ser necessariamente algo que não sou.
“Existe um tipo de homem que não dá atenção às boas ações que pratica, mas é atormentado pelas más. Esse é o tipo que, na maioria dos casos, escreve sobre si mesmo. Ele deixa de fora suas qualidades positivas e, assim, nos parece apenas fraco, vicioso e desprovido de princípios.”
Das Confissões, de Somerset Maugham (a propósito de Rousseau).
Há uma música do John Lennon que me persegue há um certo tempo, do álbum
Imagine. Imagino que ela se encaixa para 90% das pessoas que eu conheço. Os outros 10% preferem não esconder.
Crippled inside
You can shine your shoes and wear a suit
You can comb your hair and look quite cute
You can hide your face behind a smile
One thing you can't hide
Is when you're crippled inside
You can wear a mask and paint your face
You can call yourself the human race
You can wear a collar and a tie
One thing you can't hide
Is when you're crippled inside
Well now you know that your
Cat has nine lives
Nine lives to itself
But you only got one
And a dog's life ain't fun
Mamma take a look outside
You can go to church and sing a hymn
You can judge me by the color of my skin
You can live a lie until you die
One thing you can't hide
Is when you're crippled inside
Well now you know that your
Cat has nine lives
Nine lives to itself
But you only got one
And a dog's life ain't fun
Mamma take a look outside
You can go to church and sing a hymn
You can judge me by the color of my skin
You can live a lie until you die
One thing you can't hide
Is when you're crippled inside
One thing you can't hide
Is when you're crippled inside
One thing you can't hide
Is when you're crippled inside
Máscara ou persona. Tenho uma que se chama Excêntrico Pendular. Era para ser o título de um livro que eu nunca escrevi e que provavelmente nunca escreverei. Mas virou um ser com vida própria, que pensa e sente de modo autônomo. Não que não tenha nada a ver comigo. Às vezes acho que eu sou somente veículo do Excêntrico Pendular. Às vezes acho que ele é uma pequena parcela da minha personalidade: sempre me condena para, no final, me perdoar: “você é só um menino egoísta que adora perder; desista de querer acertar”. Afinal o Excêntrico Pendular flutua sempre a um milímetro do plano concreto e essa distância lhe permite julgar a todos. Mas também o obriga a absolvê-los.
Peço desculpas ao Excêntrico Pendular por invadir seu blog. A intervenção é indevida.
Terça-feira, Dezembro 18, 2007
Egotrip
Vai, vai, vai a vida, vai seguindo
E eu fico cá parado
Não sei o que é mais triste:
Se é quem segue o baile
ou se é que o fica criticando
Letras, letras, letras vão e vêm
Não sei se a vida é que é pequena
Ou se o português é que é compreensivo demais
Nele encontro a fonte e o esgotar dos meus sentidos
Está certo que ninguém esperava um grande baile
Uma eterna avant premiere que nunca se concretiza
Mas sem sonhos quem é que vive?
Eu queria ser o pescador, o Office-boy,
O público funcionário que nada espera
Mas, raios, calhou de ser que eu seja eu!
Não há como fugir: sou eu
E daí? Qual o problema?
Vamos ser assim, como a natureza designou
E que se danem os medíocres, os funcionários
Nasci duma cepa estranha
Rara, mas não melhor: diferente
Devo pedir desculpas?
Sim, se quero usufruir
Não, se quero me afundar
É uma merda não viver o meio-termo
Mas pergunto de novo: e daí?
O excêntrico é pendular porque sobrevive a tudo ou por que não resiste a nada?
E por que sobrevive a tudo não vive nada
O que é esta tal de vida que eu vivo mas que nunca conheci?
E o que é viver?
É se expor aos estímulos torpes da concretude?
Estou fora
Deixem-me na vã esperança de ser algo mais
Que não é, nem um dia será
Mas cá comigo: sei que sou, sempre serei
Por que devo esperar pelos outros?
Meu caminho é só,
É mal iluminado
Não tenho esperança de encontrar coisa melhor
Apenas sigo
As palavras não são nenhum acalanto
Não são refúgio
E não me escondo sob elas:
Eu as sou, e elas me são
E olha que eu sempre odiei as aulas de português
Na minha adolescência, prenhe de sonhos sintéticos,
sempre tentei imaginar o que teria gerado um Pessoa, um Drummond
(Camões é genial, mas é um saco e eu não sou português)
Não sei ainda o que foi
Mas lembro do raio que me atingiu aos 9 anos:
Fulano, não sei quem sejas, o teu fardo está guardado
Poderia ser pior; poderia ser melhor
Mas quem sabe dessas coisas?
Quem é essa voz?
Quem é essa maldita voz?
E por que eu continuo escrevendo quando o certo seria calar?
Terça-feira, Outubro 09, 2007
De que é feita esta sombra que me persegue?
É o sangue que vaza das minhas inúmeras feridas. Ao invés de se curarem, rasgam-se um pouco mais a cada dia. É o resultado das inúmeras e imperceptíveis violências a que me submeto diariamente por insistir em ser quem sou.
Não. Na verdade é minha essência que escapou por algum orifício. Ao contrário de se refinar com as experiências humanas, embruteceu e foi-se alhures à cata doutro trouxa para infernizar. Deixou, porém, seu negativo, que é a tal da sombra.
Olhando bem, parece que é a minha decência a flutuar sempre um palmo atrás de mim, deixando à frente apenas um animal. Podes escolher até: porco cínico, burro de carga, raposa de jade, bode expiatório.
Não é nada disso, diabo! Não consegues enxergar que aquela sombra é o rescaldo da guerra entre mim, mim mesmo e o mundo? Nesta guerra fomos perdedores, esqueceste?
Sangue, essência, decência, rescaldo e o que mais quiséssemos ter ou ser agora são apenas uma sombra que me persegue.
Terça-feira, Outubro 02, 2007
Pendular
Sinto-me assim por que tenho a alma vazia ou,
ao contrário, por que a trago cheia demais?
As ditas chaves do auto-conhecimento abrem mesmo portas ou
são elas próprias outros cadeados?
Minha inércia deriva da culpa de nada alcançar ou
é apenas tédio por ter já tudo que preciso?
O pêndulo está sempre em movimento mas,
repare, ele nunca sai do lugar
Sexta-feira, Setembro 21, 2007
Minha sede às vezes mede um mundo
Sabe-se (ou depois se descobre) que a vida é nada.
Que tudo é vão.
Mesmo assim, ansiamos tanto por viver...
Obrigamo-nos a fazer coisas,
a cumprir um destino
sob pena de se estar a desperdiçar a tal da vida.
E se tivéssemos várias vidas e não fizéssemos nada com nenhuma delas?
O desperdício seria maior?
Ou menor?
Buscar o que se passa na cabeça de outrem
Livra-nos de escrever a própria história
Há tantos autores
Para escrever o que quer que seja necessário
Atente que a vida, a cada vírgula, perde um pouco da graça:
o interminável cortejo dos que perdem, depois perseveram em recuperar, já sem o mesmo gosto, sem o mesmo frescor
Você vê
não é o tempo que passa
mas a memória que nos ultrapassa e
ficamos sem saber se o que aconteceu o foi de fato ou é mera fantasia senil
É perder um pouco a vida, este lembrar tanto
Que aos poucos vai tomando o lugar de tudo,
Fazendo-se, enfim, vida ela própria, a memória
Engano-me em achar que controlo os destinos do meu destino
Cavalga-se a vida apenas; não se a pode guiar
A vida é uma locomotiva que assenta seus trilhos na medida em que avança
Domingo, Agosto 19, 2007
A poesia nasce nalgum lugar entre quem escreve e quem lê. É metade obra do escritor, metade do leitor. Este poema já não me pertence:
A morada do coração selvagem
É por via tortuosa e sem sentido,
aparentemente
Tanto mais longe se está
quanto mais perto parece chegar
Que esse caminho tenebroso
Guarda, ao final, um Eldorado?
A ninguém, eu digo, é dado filosofar impunemente.
Vão te chamar de inúmeras coisas desairosas
A maçã podre do cesto, é você?
Quem é esse menino que olha tudo de longe?
Que não quer saber de nada, que não gosta de ninguém?
Olha ali quem vem chegando, não é o dissimulado?
O grande cínico que ri de todos nós pelas costas?
Mas se você passa por tudo isso
Então venha divisar, em meio à clareza diáfana,
a beleza encarnada em flor,
Ela te dirá, por fim,
Descanse, que alcançaste a morada do coração selvagem
Quinta-feira, Agosto 16, 2007
Aos velhos, com nenhum carinho
O ser consigo não mais está comigo, agora está contigo
Sinto que não sinto e comigo minto; este é o castigo
Ora, isso é que é adultecer, então?
E onde estão os velhos que me nunca aconselharam disso?
Estou sozinho e visto a dor de assim ser
De ver a decadência do meu meio,
de me sentir tão derradeiro,
de aspirar, enfim, àlgum inteiro
que me faça feliz por não ser nada
Que já não me aguento montando guarda
por valores que nunca foram meus
Aos seus, tudo; a mim, somente mágoa
Eu que quis tanto acabei sem nada
Eu que fiz tão pouco fiquei em dívida
Pelas gerações que na fotografia lívida
Hoje se riem de mim: és uma piada!
Domingo, Agosto 12, 2007
"I am not your rolling wheels
I am the highway"
(I am the highway, Audioslave)
Domingo, Agosto 05, 2007
Obrigado por nada
Em Camus vivo o absurdo do absurdo: a banalidade
Nietzsche matou meu Deus e não deixou nada no lugar
George Orwel levou de mim a utopia e sobrou cá apenas um cínico
Garcia Márquez me ensinou que errarei tanto mais persiga o acerto
Machado de Assis revelou os segredos da minha alma: envergonhei-me
Saramago mostrou-me que o riso é, sim, a verdadeira crítica: desaprendi a rir, sei somente criticar
Gracias, literatura
Por me criar em lugar dos meus pais
Gracias, literatura
Por me dar tudo que tenho e me deixar sem nada
Gracias, literatura
Por me tornar o homem que sou
Gracias, literatura
Por me tornar um homem incapaz de conviver com outros homens
Quinta-feira, Julho 19, 2007
A Cesar o que não é de Cesar
Acho que foi Julio Cesar que disse “é muito difícil deixar de ser aquilo que as pessoas pensam você é”.
Páris será sempre o mais belo entre todos os homens, ainda que fosse o mais covarde deles.
Rousseau será sempre o campeão da igualdade social, ainda que se saiba que entregou os próprios filhos à adoção.
Portanto, chame do que quiseres: assim serei.
De nada importa o que fiz ou farei.
Não sou sábio como César
Não sou belo como Páris e
nem tenho idéias próprias como Rousseau.
Não sou nada
O que quer que pensem que sou,
então serei
Segunda-feira, Junho 25, 2007
Antes da partida
Despeço-me e vou
Já não espero amanhã
Certo que estou
que seguirei liberto,
eu vou
Vou porque hoje o tempo corre demais
Vou porque não sossego no canto que deveria ocupar
Vou não obstante o que insiste em me prender
Vou porque simplesmente não posso ficar
Sei que volto
Mas sei que não volto igual
Minha sede às vezes mede um mundo
Às vezes é só pó, desalento
Mas é sempre mais do que posso suportar
Então me deixo ir
Despeço-me e vou
Agora espero o amanhã
Já não tão certo de quem sou
Sábado, Junho 16, 2007
O amor o fazia errar com maior freqüência
ou
Queria ser completo, não incompleto: felicidade é valor da sociedade de consumo *
"Vida e mais vida ou ferida"
Certas Canções (Tunai/Milton Nascimento)
O de coração pacífico sempre se cala quando devia falar
O de coração pungente fala sem nunca antes pensar
De que é feito meu coração?
Desejo? Frustração? Culpa? Satisfação?
O de coração valente se fortalece do contato da gente
O de coração alegre apenas segue contente de si
Outra coisa a fazer seria ver derramar fora toda minha alma
Encara-la de frente e ver de que sou feito
Norte pálido numa noite escura
O amor o fazia errar com maior freqüência
Agora não faz mais
* Você já viu coisa mais feliz que propaganda de margarina?
Segunda-feira, Junho 04, 2007
Prosa improvável
A prosa é de todo improvável. Somente a poesia é capaz de retratar o que se passa no mundo (interior de cada um).
De cumes raros, entrecortados por intermináveis planícies inférteis, que se faz a vida. Ninguém vive seguindo por linhas nem virando páginas. Uma trajetória humana não se divide em capítulos. Quisera tanto houvesse um índice a seguir.
A vida segue mesquinha e sem sabor quase todo o tempo. Mas há pouquíssimos momentos em que ela transborda e quer se mostrar. Quer provar que ainda pulsa. Então se cristaliza em poesia. Procura o papel que a vai refletir. Nesse momento se depara com as limitações do meio: a linguagem escrita.
A linguagem escrita é uma forma muito rudimentar de expressar o que se pensa e sente. Somente a poesia, entretanto, consegue chegar aos extremos aonde a prosa não vai. Isso porque, em sua simplicidade espartana, a poesia se preocupa apenas com o essencial: ela própria.
A poesia é fisiológica, espontânea. Lapso irrepetível. Breve corte. Testemunho de sua própria autenticidade.
Sem isso, poesia vira prosa: todo aquele brilho que se acreditava ter se transforma apenas em garranchos sem sentido. A culpa já não é da linguagem: é da palidez do papel, da caneta imprecisa, da estupidez de quem escreve.
Sexta-feira, Junho 01, 2007
Nietzsche pronto para consumir
"Ó jovem companheiro de aurigas imortais, tu que assim conduzido chegas à nossa morada,
Salve! Pois não foi mau destino que te mandou perlustrar esta via (pois ela está fora da senda dos homens), mas lei divina e justiça;
É preciso que de tudo te instruas, do âmago inabalável da verdade bem redonda e de opiniões de mortais, em que não há fé verdadeira."
Sobre a natureza, Parmênides de Eléia
Pairar acima do bem e do mal
É posição difícil de se sustentar
Há sempre alguém clamando por justiça
Alguém se dizendo o último guardião da verdade
Que justiça, que verdade que há? senão tantas quantas somos nós?
Há tantas suscetibilidades a ferir, tão raro alcançar o coração selvagem
Porque não há!
Parecem todos umas crianças mimadas, fazendo birra, querendo chamar a atenção
É incômodo permanecer no meio
Por isso, e apesar de ser muito custoso,
melhor pairar acima do bem e do mal.
Quinta-feira, Maio 31, 2007
Minhas raríssimas virtudes
"Ninguém sabe que coisa quer
Ninguém conhece que alma tem
Nem o que é mal nem o que é bem
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro"
Fernando Pessoa
Acreditando que estava a trocar velhos hábitos e crenças, terminei por esvaziar-me completamente. Passei adiante tudo que era meu. Pensei que os substituía com vantagem. Mas passei sem antes receber, de modo que acabei com nada.
Fui logrado.
Não tenho religião e o racionalismo se me revelou tão falso quanto. Já não tenho ideologia e só me resta escolher entre o ruim e o pior. Não tenho valores pétreos e minha tolerância com os outros se mostrou, afinal, uma enorme fraqueza.
Meus bons hábitos, por não exercitá-los mais, atrofiaram-se em vícios. Minha identidade, de tão hospitaleira a tudo que é novo ou diferente, decalcou-se do espírito e foi-se embora, levando o que havia de único em mim. Meu respeitável caráter degenerou num personagem mal ensaiado e cheio de trejeitos.
No desgoverno de mim, que não encontra um norte, apenas labirintos intermináveis, desatino num sonho louco de escapar a tudo. Silenciosamente deixar que se esqueçam de mim. Despir-me de toda quinquilharia mental que acumulei. Sumir do que eu já não governo e reaparecer munido apenas de minhas virtudes.
Somente elas: minhas raríssimas virtudes.
Sábado, Maio 12, 2007
O ralo do sistema
A Justiça Criminal é a válvula de descarga de qualquer sociedade modernizada - ou que ao menos assim queira ser chamda. Ali, um suspeito de ser um dejeto é devolvido ao círculo social ou expelido para as margens, o degredo (para Kafka, somente haveria a última "opção").
Juízes, promotores e advogados processam determinados indivíduos destacados por terem supostamente violado alguma regra. São funcionários destacados pelo organismo estatal para a derradeira trigem daquilo que ainda serve e daquilo que já não serve (ou nunca serviu).
Cada sociedade termina por criar seus próprios criminosos: à sua imagem e semelhança. Umas mais, outras menos; é verdade. A Justiça Criminal então se encarrega de expurgar os que já não têm (ou que nunca tiveram) uso. São os dejetos do mecanismo de reprodução da mesma ordem de coisas que em qualquer século que olharmos se repete: há sempre ricos e pobres. Mais de um ou de outro em determinadas épocas, nos mesmos lugares. Mas sempre, ricos e pobres. Como?
Os mais ricos de cada lugar alcançam sempre o poder ou acabam ficando ricos depois de alcançá-lo. Não importa a ordem. Os mais pobres, se não servem para nada, são coercitivamente levados para fora do mecanismo, após serem devidamente processados pela Justiça Criminal.
No Brasil: há, pisando nas cabeças dos não-tão-pobres e servindo de suporte emulador e reserva acrítica e amoral dos não-tão-ricos, a pitoresca classe média.
Segunda-feira, Abril 30, 2007
Sinto como se estivesse perdido nalgum lugar no meio do caminho. Perdi-me, ... (!!!?)
27.05.2007: Achei e colei alguns cacos já.
Quinta-feira, Outubro 05, 2006
Absence of pain
Take a walk on the dark side
then you'll realize
how many empty moments
make a dull life
Absence of pain
as my useless path
Dust for self-steam
it fits me in with everybody else
Art brut and cheap perfume
from the flowers I've stolen from you
Heaven is anywhere but here
Now I stand for what I fear
There once was a guardian
where now I like to hide
I wish I were poorer
so I could compromise
Auge e declínio dos mercadores do amor
"Baste a quem baste o que lhe basta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar."
Fernando Pessoa (Mensagem, Livro I, Primeiro, O das quintas)
O ápice é o ponto mais próximo do início da derrocada, ainda dentro das fronteiras da espiral ascendente. Segundo Marx, observando-se o clímax de um dado movimento é possível prever seu final. O ponto culminante do movimento de mercantilização do amor, assunto que nos tem interessado deveras nos últimos dias, teria sido já alcançado?
Em condições normais de temperatura e pressão (o que não é o caso do nosso cenário atual), o mundo é dividido em porções iguais de egoístas e de altruístas. Se há um egoísta a mais que número total de altruístas, o sistema todo de desequilibra. Entra num círculo vicioso. Quem é ferido uma vez, passa a querer ferir os outros. O mundo ganha mais um egoísta empedernido. A espiral, então, se inverte e o movimento começa a declinar.
Ainda há hoje mais gente comprometida com dar sem qualquer ressalva. Mas agora os mercadores do amor já não lucram com tanta facilidade. Há pessoas que passaram a exigir contrapartidas. E haverá cada vez mais, na medida em que um único mau exemplo desconstrói anos de virtude ensinada. Ou, menos sofisticado, gato escaldado tem medo de água fria.
Assim, muito embora o movimento de mercantilização do amor esteja ainda engatinhando, já é possível vislumbrar seu perecimento. Fica o problema, entretanto: o que restará de nós quando tudo isso acabar? Quem vai ter que limpar a sujeira? A quem caberá a missão de assentar as bases para um tempo novo, no qual poderemos voltar a ser nós mesmos, amadores, contemplativos, ociosos, desinteressados, complacentes, generosos. Verdadeiros, enfim, pelo menos no que se refere ao amor.
Não quero fazer parte de um mercado. Não quero ter preço, valor de troca, custo-benefício. Não quero ter que expor meu currículo a cada pessoa que conheço. O que você faz da vida? Como é sua estrutura familiar? Como você se comportou em relacionamentos passados? Quais são seus planos? Você prefere filmes europeus ou hollywoodianos? Cavalo dado não se olha os dentes. Cavalo comprado, examina-se até o fundo da alma.
Quero o ser, não o dever-ser. Quero a essência e não apenas a manifestação sensível. Mas não posso deixar que minha vontade íntima, que minha singela utopia, influencie minha análise. Nosso mundo está doente. Quem vai nos curar?
Quinta-feira, Agosto 03, 2006
A feira dos mercadores do amor
Antes de me dar conta de que vivia em meio aos mercadores do amor, confiava que nada perderia apostando no amor, sem qualquer indício que não fosse mero palpite ou o que eu acreditava ser uma espécie de intuição. Sei somente agora que há uma nova ordem de coisas, da qual os pobres amadores do amor, da beleza espontânea e da contemplação emancipadora vão ficando dolorosamente alienados. E assim o mundo perde seu último bastião de ineficiência, de ludicidade, de gozo simples e despreocupado. De virtude mesmo, se virtude houvesse. Do que nos faz humanos, nos diferindo dos chimpanzés e seus escambos muito úteis. "A soma dos interesses individuais engendra o bem comum".
O amor, ah amor, assim como já aconteceu com todas as outras coisas humanas antes dele, passou a ter valor de troca e valor de uso. Assim como um cavalo: tenho-o para me servir. Posso trocá-lo por um melhor. Posso vendê-lo se já não me servir. Posso ficar com ele para sempre, ignorando altas ofertas, porque dele me apeguei, irracionalmente. De qualquer modo, ele tem um valor mensurável, quantitativamente. Pode ser comparado com outros animais ou outros bens igualmente úteis e escassos.
O amor é uma marcha da vitória. À frente, nosso engalanado general de cinco estrelas vai com o coração da mulher amada numa estaca. Atrás dele, o resto da tropa carrega os estandartes da nova sociedade, finalmente vitoriosa: o dinheiro, o culto ao corpo e à própria personalidade, a eficiência contábil, o racionalismo insensível, e, principalmente, "o que eu ganho com isso?". Ao lado, a platéia quer ver apenas esperma, sangue e fast-food.
Ao final da parada, começam as festividades. Não poderia deixar de ser uma feira. E os mercadores do amor armam suas bancas. Oferecem seu produto. Lustram-no com cuspe. Propagam suas infinitas vantagens. Especializam-se, na busca de um nicho de mercado mais promissor. Prometem um mundo muito melhor ao consumidor. Um sonho. Não importa o que seja ou faça, apenas compre o meu amor. Apenas compre-me.
Quarta-feira, Agosto 02, 2006
A Regra de Ouro da Humanidade e os mercadores do amor
Dar e receber. A troca parece ser a regra de ouro das relações humanas. Sempre funcionou, quintessência que é da nossa espécie mui gregária. Em períodos de calmaria, damos à vista para receber a prazo, sem qualquer garantia e sem cobrar juros. Em épocas temerárias, é bem diferente. Desconfiados de tudo e de todos, esperamos receber antes para dar somente depois. Defendemo-nos e, como estão exigindo pagamento antecipado, ninguém sai do lugar. E aí é o desencontro das pretensões, os irreconciliáveis interesses, os desejos sempre desatendidos. Mas todos sabem que não há mal que sempre dure, e os bons tempos sempre seguem as tormentas.
Se eu quero ter um carro X, devo pagar o preço Y. Se tenho apenas meio Y, posso justificadamente exigir que me entreguem o carro? Não, não tenho a oferecer ao vendedor o que ele deseja. Se eu espernear, bater o pé, exigir que me entregue o carro, dirão que sou louco.
Nos relacionamentos humanos deveria valer a mesma regra. E ela geralmente valia, até há pouco tempo. Se as pessoas querem alguém inteligente, bonito, bem-humorado, romântico na medida certa, seguro (porém, imprevisível), bem-sucedido, competente, honrado, de boa família, devem então, dar em troca inteligência, beleza, carinho, segurança, etc e etc, na mesma proporção. Essa é a Regra de Ouro da Humanidade.
Todavia, pessoas há que querem receber antecipadamente, reservando-se o direito de retribuir apenas quando e somente se o produto que lhe foi oferecido atender completamente seus anseios. Um negócio sem riscos: recebo agora, pago se quiser.
Vivemos hoje numa sociedade de mercadores do amor. A Regra de Ouro da Humanidade se quebra. Sem regras (i.e., sem um mínimo de previsibilidade dos comportamentos humanos), ninguém consegue operar. A grande contribuição da minha geração foi fazer desabar a milenar construção humana de uma rede tácita de confiança/retribuição baseada na quase certeza de que, dando, receberei. Parabéns a todos os meus contemporâneos.
Quarta-feira, Julho 26, 2006
4 dias sem fumar
Pouco a pouco, os contornos das coisas vão ficando mais claros. Pareço saído de um sonho (ou pesadelo?). Só sei que são brumas. Na verdade, fumaça. Tóxica. Ácida. Cáustica. Suicida. Penso na morte lenta e dolorosa que me tenho impingido nos últimos 10 anos. Não me culpo. Qualquer um teria feito o mesmo no meu lugar. Odeio-me, mas ao mesmo tempo quero me salvar. Levar-me para um lugar mais seguro onde eu possa, finalmente, me deixar viver. Foda-se que a vida é tão pesada de se carregar. Dane-se que as pessoas são egoístas e infelizes. Pro inferno esse mundo sem sentido. Na verdade o mundo é minha cabeça. E ela tem que estar límpida e consciente para que as coisas fiquem leves, serenas, fluidas, tranqüilas, pacíficas...
Terça-feira, Julho 25, 2006
3 dias sem fumar
Quanto do que eu sou é realmente meu? Quanto não são empulhações, impostas por mim ou por outrem. Quanto não são imposições, resultado da minha fraqueza, da minha falta de fortaleza? Quanto aceitei conscientemente e quanto simplesmente engoli sem pensar? Agora terei necessariamente que descobrir. Estou em guerra comigo mesmo: o que sou realmente eu e o que é outro, o câncer? O que deverá ser extirpado?
Terça-feira, Julho 18, 2006
Ame-o ou o deixe
Esse é o país onde, em se plantando, tudo dá. É a terra onde o amor floresceria grandioso, fossem minimamente voluntariosas as mãos que a cultivam. Mas não. Isso é terra de aventureiros, faiscadores, piratas e garimpeiros. Gente que quer colher sem plantar. É claro: o amor aqui é tão facilmente obtido que as pessoas negligenciam aprimorar o cultivo, obter dele o que de melhor tem o solo a dar. Essa terra é uma prostituta que trabalha de graça, por amor à profissão. Mas esta prostituta está cansada de não receber nada em troca.
Quinta-feira, Julho 13, 2006
P. acato C. idadão da C. ivilização